
O Vaso
Sua presença era notável. Era um lindo vaso de porcelana. Sobre uma pilastra de arquitetura grega, o vaso tinha uma incrível capacidade de percepção. Sua sensibilidade aguçada o tornava ainda mais bonito. Ele se destacava entre os outros membros da família. Além disso, aconchegava um lindo ramalhete de rosas vermelhas.
Dona Júlia era a dona do vaso. O nascer do sol era o marcador do início de uma longa prosa entre o vaso e dona Júlia. Se Júlia estivesse feliz, provavelmente, o vaso também estaria.
Thiago era neto de dona Júlia. O rapaz nunca havia notado a presença do vaso. O rapaz era vazio. O vaso era cheio.
Ricardo era filho de dona Júlia, pai de Thiago. Ele já reparara a presença do vaso, mas era algo indiferente.
Marília era nora de dona Júlia. Ela odiava o vaso. O vaso já reparara a sua presença, mas era algo indiferente.
Próximo à janela, o vaso não era vidente. Apenas tinha uma vista privilegiada dos fatos. O vaso viajava entre os vários conflitos familiares. Dona Júlia se consolava ao lado do vaso. Assim sempre foi. O vaso não era vagal. Vivia de acordo com os seus limites. Tinha suas próprias versões sobre os fatos.
Dona Júlia iniciara uma reforma na casa. Thiago foi o primeiro a reclamar.
- Se continuar com esse barulho eu vou embora!
- Pode quebrar aquela parede, dizia dona Júlia ao pedreiro.
Ricardo também desabafou.
- Mãe, reformar a casa? Que bobagem!
- Vai ficar linda, exclamava dona Júlia.
Marília não perdia a oportunidade:
- Tomara que eu me mude logo dessa casa.
- Nossa, vaso! Você está tão lindo hoje, dizia dona Júlia.
Dona Júlia tentava amenizar a situação. O vaso aconselhava dona Júlia na medida do possível. Assim foi até o final da reforma.
Mas, infelizmente, dona Júlia ficara doente. Os problemas no coração eram suas derrotas. No hospital, a enfermeira informou que Thiago não pôde ir, pois estava treinando no colégio. Ricardo estava em uma reunião e Marília havia visitado a mãe. Informou, também, que alguém deixara um vaso na recepção.
Dona Júlia ficara muito contente. O vaso estava limpo, brilhante e as flores estavam mais vermelhas. A alegria foi tanta que dona Júlia saiu do hospital no dia seguinte.
Chegando em casa, o vaso voltou para o mesmo lugar. Ninguém da família estava lá. Dona Júlia e o vaso ficaram sozinhos por bastante tempo. Dona Júlia deitou - se na cama e fechou os olhos. Ficou sentindo a brisa que vinha da janela. O vaso sorria para dona Júlia. Dona Júlia adormecera. O vaso ficou velando o sono de sua companheira.
Um vento repentino soprou forte. O vaso se desequilibrou e caiu no chão partindo - se em mil pedaços. As rosas vermelhas se espalharam ao redor do vaso. Dona Júlia acordou com o barulho da tragédia. Inclinou - se e viu que o seu melhor amigo estava morto no chão.
Infelizmente, dona Júlia sofria do coração. E um ataque cardíaco a levou para o céu. Estendida na cama, dona Júlia era, agora, a mulher mais feliz.
Horas depois, Ricardo e sua família encontraram dona Júlia deitada na cama. O vaso estava quebrado no chão.
Dona Júlia não deixara nada para seus descendentes. Apenas os cacos do vaso.