terça-feira, 27 de julho de 2010

O outro vôo


O outro vôo

A poltrona parecia pertencer a um recém-nascido. Minúscula. As pernas não sabiam mais para qual lado posicionar. Nem os braços. Nem a cabeça. Nem as mãos. Viajar internacionalmente não é glamuroso. Muito menos confortável. E assim que apagaram as luzes para que pudessem dormir (entenda-se tentar dormir), ele começou a sentir um frio digno de um inverno rigoroso no pólo sul. Ar-condicionado.
Pensando neste desconforto adicional, a companhia aérea oferece um kit salva-vidas, contendo um par de meias nitidamente fora de moda, um cobertor sapeca - moleque, uma útil escova de dente e um inútil tapa-ouvido.
Na hora de escolher um filme ou uma série de televisão para assistir, há uma boa variedade de títulos disponíveis. Ele escolheu uma comédia dramática na qual sua atriz favorita era a protagonista, além de ser um filme que concorreria ao Oscar naquele ano.
Tentou se posicionar o mais confortável possível debaixo daquele cobertor vermelho - sangue. Para isso, teve que se revirar pra lá e pra cá várias vezes. Até que ele despertou o (des)interesse da pessoa que estava ao seu lado. É claro que ele já havia reparado nas atitudes dele desde quando este se sentou, porém nenhuma atitude desagradável havia ainda lhe chamado a atenção.
De uma maneira meio indelicada, o rapaz ao lado ajeitou sua roupa cutucando - o de leve e ligou a televisão. Procurou... procurou... procurou... e encontrou um filme de ficção científica intergalático. Assim, ficaram assistindo aos filmes, cada um no seu canto e ainda mais reduzidos e encolhidos ao pequeno espaço que era fornecido, para que não houvesse nenhum tipo de contato físico.
Durante o filme, ouvia roncos e crianças chorando, roncos e crianças chorando, roncos e crianças chorando. Entretanto, seu filme era ótimo. E várias vezes ele caía na gargalhada. E por causa dessa sua atitude, o rapaz ao seu lado lhe olhava de rabo - de - olho e bufava como se ele estivesse atrapalhando sua viagem pelo espaço sideral. Ele caía na gargalhada propositalmente logo em seguida. E assim foi até o final do filme, que acabou primeiro que o dele, coincidindo com o serviço de bordo.
Ele poderia escolher entre frango, carne e massa. Escolheu frango. O rapaz ao seu lado escolheu massa. E comeram em silêncio. E continuavam separados. E o rapaz ainda o olhava de rabo – de -olho.
E o que fazer agora? Tentar dormir? Assistir a mais um filme? Conversar? Prestar atenção nos roncos e no choro das crianças? Escolheu a primeira opção e tentou dormir. Não funcionou muito bem, entretanto. Mas quando acordou já era de manhã e viu os raios solares saindo da pequena janela. Usou sua escova de dente gentilmente cedida pela companhia aérea e foi ao banheiro. Aliás, o banheiro foi outro momento crucial desta viagem. Equilibrista? Trapezista? Contorcionista? Exerceu os três cargos ao mesmo tempo.
Quando voltou, o rapaz que sentava ao seu lado já estava acordado tomando o café da manhã. Assim que se sentou, uma comissária de bordo veio trazer o dele. Comeu em silêncio novamente. Contudo, a esta hora do vôo, ele já estava com muita vontade de conversar. E quando abriu a boca para fazer uma pergunta, o rapaz ao seu lado disse primeiro:
- Primeira vez que vai a Europa?
- Sim, sim...
Fez-se uma pausa.
- E você?
- Não, é a segunda vez. E dessa vez vou ficar no interior. Estudar.
- Ah, eu vou ficar em Paris e depois fazer um tour pela Europa.
- Legal.
Outra pausa.
De repente, o piloto anuncia que o pouso fora autorizado.
Foi então que o rapaz se curvou e pegou sua mochila. De lá tirou um guia turístico completo de Paris e lhe deu.



sexta-feira, 23 de julho de 2010


Caindo


Cai o esforço
de um moço
oco
Que queria muito
ir ao encontro
de um rosto
azul/amarelo
e cor de rosa
levando, é claro
uma rosa
rosa
Nossa! Não!
Só cai o esboço.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

O vôo




O vôo

Ele suspirou de alegria e tristeza. Misturou de leve as pedras de gelo que boiavam refrescantemente no copo com coca-cola. Lambeu o dedo e lançou um olhar perseguidor ao seu redor. As pessoas não estavam lhe prestando atenção, embora esse fosse o seu desejo íntimo.
O avião decolou e ele fechou os olhos demonstrando calma e falta de preocupação. Sentiu que teria que ler o livro que trouxera consigo devido ao pouco entusiasmo que lhe circundava (para ser bem claro: não havia nenhuma pessoa interessante no vôo).
Ele leu dois capítulos e respirou profundamente, olhando em seguida para a janela a fim de visualizar alguma paisagem conhecida. No instante seguinte, reparou as pernas que estavam esticadas justamente ao seu lado. E ficou surpreso por não repara-las anteriormente. E imaginou o que perdera por não ter reparado aquelas pernas no saguão do aeroporto ou até mesmo ao entrar na aeronave.
Enfim havia encontrado um entretenimento para os quinze minutos finais. E por um pequeno momento desejou que as duas cidades fossem mais distantes uma da outra. Terminou de beber a coca-cola e colocou a pequena pedra de gelo na boca. Devolveu o copo para a aeromoça e logo em seguida lançou um olhar para as pernas e depois para a cintura. Sentiu – se sortudo e abriu um pequeno sorriso. Entretanto, foi interrompido pela voz do piloto autorizando o pouso no aeroporto. Pegou sua mochila dentro do compartimento de bagagens e ficou de pé, esperando em fila indiana o momento de desembarcar. E deixou, é claro, que as lindas pernas ficassem à sua frente. Acompanhou – las até onde pôde, mas aquelas pernas pareciam estar apressadas ou desinteressadas em conhecê-lo. Desistiu, então, apesar de ter imaginado suas mãos tocando-as por cima da calça jeans.
Desviou o seu trajeto para o restaurante e pediu um prato bem gostoso, para compensar a perda que havia sofrido. Deliciou-se por alguns minutos e sentiu que seu dia seria longo. O que fazer até o próximo vôo que o levaria para outra cidade? Foi então que resolveu procurar as pernas. Talvez elas estivessem esperando também, assim como ele. Passou por todas as lojas, restaurantes, bares e companhias aéreas. Não as encontrou. Resolveu sentar em um dos bancos de espera. Após alguns minutos resolveu deitar. Tirou seus óculos escuros da cabeça e os deslizou até os olhos para que pudessem encobrir seu olhar enquanto tirava uma soneca. Pouco a pouco o sono foi lhe atingindo. Segurava sobre a barriga, para dar um ar mais culto a sua pessoa, o livro que havia começado a ler dentro do avião.
Passaram – se quarenta minutos e inesperadamente foi despertado por um senhor de meia-idade que lhe pedia um ajuda em dinheiro para inteirar uma passagem de volta à Bahia. Carecidamente e com uma vontade intrínseca de fazer uma boa ação deu dois reais ao senhor. O homem lhe agradeceu e lhe perguntou qual era o destino da viagem. Disse somente que estaria saindo do país.
Quando pensou em voltar à sua posição de repouso, foi abordado pelo lindo par de pernas que havia buscado com tanto interesse anteriormente. Mas as pernas só queriam lhe dizer que precisavam de mais espaço no banco onde ele estava usando de uma forma meio abusiva
.

domingo, 4 de julho de 2010

Somos todos animais


Forte
destino
late o
gato
sozinho
na favela

Vaca
desengonçada
desfila
piando
cantando
vantagem

Galinha
urbana
come pedra
vomitando
tragédia
na rédea