domingo, 26 de setembro de 2010

O espirro


Eu peguei um resfriado.
Não sei o que tenho que fazer agora.
Hora de ir
hora de voltar.
Talvez um pouco de ar
puro.
Será que encontro pureza
ou tristeza
na natureza
da natureza humana?
Mão que resgata
o gato preso
nos galhos
sozinho sem ninguém.
Alguém.
Ninguém.
Há tanto tempo
com tanta gente por perto
longe.
No Paraíso.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Impaciência do amor


Não sei por que
não calo a boca
quando você fala.
Mas quando eu me
viro pra falar
deixe – me.
Nada de bom
acontece quando
você fala
você chora
você – mala.
Pare assim.
Amor acontece.
Teça o fio
que nos une.
Menos
bem menos
mais
muito mais
Se...
Se acontecer
Se beber, se comer
Dois passos,
três, quatro
cinco
para o abismo
Veja que estou caindo
falindo
Eu preciso
I need
Eu
E...

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Detritos no banheiro


Detritos no banheiro

Azulejos e toalhas
os únicos que
conhecem a verdade.
Mas as palavras
que saem da boca
não são mentirosas.
Mentiroso
é aquele que mente
pra sua mente.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

O vaso


O Vaso

Sua presença era notável. Era um lindo vaso de porcelana. Sobre uma pilastra de arquitetura grega, o vaso tinha uma incrível capacidade de percepção. Sua sensibilidade aguçada o tornava ainda mais bonito. Ele se destacava entre os outros membros da família. Além disso, aconchegava um lindo ramalhete de rosas vermelhas.
Dona Júlia era a dona do vaso. O nascer do sol era o marcador do início de uma longa prosa entre o vaso e dona Júlia. Se Júlia estivesse feliz, provavelmente, o vaso também estaria.
Thiago era neto de dona Júlia. O rapaz nunca havia notado a presença do vaso. O rapaz era vazio. O vaso era cheio.
Ricardo era filho de dona Júlia, pai de Thiago. Ele já reparara a presença do vaso, mas era algo indiferente.
Marília era nora de dona Júlia. Ela odiava o vaso. O vaso já reparara a sua presença, mas era algo indiferente.
Próximo à janela, o vaso não era vidente. Apenas tinha uma vista privilegiada dos fatos. O vaso viajava entre os vários conflitos familiares. Dona Júlia se consolava ao lado do vaso. Assim sempre foi. O vaso não era vagal. Vivia de acordo com os seus limites. Tinha suas próprias versões sobre os fatos.
Dona Júlia iniciara uma reforma na casa. Thiago foi o primeiro a reclamar.
- Se continuar com esse barulho eu vou embora!
- Pode quebrar aquela parede, dizia dona Júlia ao pedreiro.
Ricardo também desabafou.
- Mãe, reformar a casa? Que bobagem!
- Vai ficar linda, exclamava dona Júlia.
Marília não perdia a oportunidade:
- Tomara que eu me mude logo dessa casa.
- Nossa, vaso! Você está tão lindo hoje, dizia dona Júlia.
Dona Júlia tentava amenizar a situação. O vaso aconselhava dona Júlia na medida do possível. Assim foi até o final da reforma.
Mas, infelizmente, dona Júlia ficara doente. Os problemas no coração eram suas derrotas. No hospital, a enfermeira informou que Thiago não pôde ir, pois estava treinando no colégio. Ricardo estava em uma reunião e Marília havia visitado a mãe. Informou, também, que alguém deixara um vaso na recepção.
Dona Júlia ficara muito contente. O vaso estava limpo, brilhante e as flores estavam mais vermelhas. A alegria foi tanta que dona Júlia saiu do hospital no dia seguinte.
Chegando em casa, o vaso voltou para o mesmo lugar. Ninguém da família estava lá. Dona Júlia e o vaso ficaram sozinhos por bastante tempo. Dona Júlia deitou - se na cama e fechou os olhos. Ficou sentindo a brisa que vinha da janela. O vaso sorria para dona Júlia. Dona Júlia adormecera. O vaso ficou velando o sono de sua companheira.
Um vento repentino soprou forte. O vaso se desequilibrou e caiu no chão partindo - se em mil pedaços. As rosas vermelhas se espalharam ao redor do vaso. Dona Júlia acordou com o barulho da tragédia. Inclinou - se e viu que o seu melhor amigo estava morto no chão.
Infelizmente, dona Júlia sofria do coração. E um ataque cardíaco a levou para o céu. Estendida na cama, dona Júlia era, agora, a mulher mais feliz.
Horas depois, Ricardo e sua família encontraram dona Júlia deitada na cama. O vaso estava quebrado no chão.
Dona Júlia não deixara nada para seus descendentes. Apenas os cacos do vaso.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Estrabismo



Estrabismo

Que olhos puros
que olhos claros
que eu quero.
Mas não encontro
o encontro
desses olhos
vesgos.
Pureza clara
de nascença.
Eu já sabia
que o meu olhar
fechou os seus olhos
e acabou
.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Resistência ao amor


Resistência ao amor


Não
amo
amor
amado
assim
amo
meu
reflexo

Reflexo
voz
palavras
amo
mas
não

Não
amo
carne
detalhe
um milagre
sem fim

Infinito
além
ecos
amados
amedrontados

Medo
amo
muito
mas
não
amo
amar

Amor
impossível
irresistível
morro
amo
não

terça-feira, 27 de julho de 2010

O outro vôo


O outro vôo

A poltrona parecia pertencer a um recém-nascido. Minúscula. As pernas não sabiam mais para qual lado posicionar. Nem os braços. Nem a cabeça. Nem as mãos. Viajar internacionalmente não é glamuroso. Muito menos confortável. E assim que apagaram as luzes para que pudessem dormir (entenda-se tentar dormir), ele começou a sentir um frio digno de um inverno rigoroso no pólo sul. Ar-condicionado.
Pensando neste desconforto adicional, a companhia aérea oferece um kit salva-vidas, contendo um par de meias nitidamente fora de moda, um cobertor sapeca - moleque, uma útil escova de dente e um inútil tapa-ouvido.
Na hora de escolher um filme ou uma série de televisão para assistir, há uma boa variedade de títulos disponíveis. Ele escolheu uma comédia dramática na qual sua atriz favorita era a protagonista, além de ser um filme que concorreria ao Oscar naquele ano.
Tentou se posicionar o mais confortável possível debaixo daquele cobertor vermelho - sangue. Para isso, teve que se revirar pra lá e pra cá várias vezes. Até que ele despertou o (des)interesse da pessoa que estava ao seu lado. É claro que ele já havia reparado nas atitudes dele desde quando este se sentou, porém nenhuma atitude desagradável havia ainda lhe chamado a atenção.
De uma maneira meio indelicada, o rapaz ao lado ajeitou sua roupa cutucando - o de leve e ligou a televisão. Procurou... procurou... procurou... e encontrou um filme de ficção científica intergalático. Assim, ficaram assistindo aos filmes, cada um no seu canto e ainda mais reduzidos e encolhidos ao pequeno espaço que era fornecido, para que não houvesse nenhum tipo de contato físico.
Durante o filme, ouvia roncos e crianças chorando, roncos e crianças chorando, roncos e crianças chorando. Entretanto, seu filme era ótimo. E várias vezes ele caía na gargalhada. E por causa dessa sua atitude, o rapaz ao seu lado lhe olhava de rabo - de - olho e bufava como se ele estivesse atrapalhando sua viagem pelo espaço sideral. Ele caía na gargalhada propositalmente logo em seguida. E assim foi até o final do filme, que acabou primeiro que o dele, coincidindo com o serviço de bordo.
Ele poderia escolher entre frango, carne e massa. Escolheu frango. O rapaz ao seu lado escolheu massa. E comeram em silêncio. E continuavam separados. E o rapaz ainda o olhava de rabo – de -olho.
E o que fazer agora? Tentar dormir? Assistir a mais um filme? Conversar? Prestar atenção nos roncos e no choro das crianças? Escolheu a primeira opção e tentou dormir. Não funcionou muito bem, entretanto. Mas quando acordou já era de manhã e viu os raios solares saindo da pequena janela. Usou sua escova de dente gentilmente cedida pela companhia aérea e foi ao banheiro. Aliás, o banheiro foi outro momento crucial desta viagem. Equilibrista? Trapezista? Contorcionista? Exerceu os três cargos ao mesmo tempo.
Quando voltou, o rapaz que sentava ao seu lado já estava acordado tomando o café da manhã. Assim que se sentou, uma comissária de bordo veio trazer o dele. Comeu em silêncio novamente. Contudo, a esta hora do vôo, ele já estava com muita vontade de conversar. E quando abriu a boca para fazer uma pergunta, o rapaz ao seu lado disse primeiro:
- Primeira vez que vai a Europa?
- Sim, sim...
Fez-se uma pausa.
- E você?
- Não, é a segunda vez. E dessa vez vou ficar no interior. Estudar.
- Ah, eu vou ficar em Paris e depois fazer um tour pela Europa.
- Legal.
Outra pausa.
De repente, o piloto anuncia que o pouso fora autorizado.
Foi então que o rapaz se curvou e pegou sua mochila. De lá tirou um guia turístico completo de Paris e lhe deu.



sexta-feira, 23 de julho de 2010


Caindo


Cai o esforço
de um moço
oco
Que queria muito
ir ao encontro
de um rosto
azul/amarelo
e cor de rosa
levando, é claro
uma rosa
rosa
Nossa! Não!
Só cai o esboço.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

O vôo




O vôo

Ele suspirou de alegria e tristeza. Misturou de leve as pedras de gelo que boiavam refrescantemente no copo com coca-cola. Lambeu o dedo e lançou um olhar perseguidor ao seu redor. As pessoas não estavam lhe prestando atenção, embora esse fosse o seu desejo íntimo.
O avião decolou e ele fechou os olhos demonstrando calma e falta de preocupação. Sentiu que teria que ler o livro que trouxera consigo devido ao pouco entusiasmo que lhe circundava (para ser bem claro: não havia nenhuma pessoa interessante no vôo).
Ele leu dois capítulos e respirou profundamente, olhando em seguida para a janela a fim de visualizar alguma paisagem conhecida. No instante seguinte, reparou as pernas que estavam esticadas justamente ao seu lado. E ficou surpreso por não repara-las anteriormente. E imaginou o que perdera por não ter reparado aquelas pernas no saguão do aeroporto ou até mesmo ao entrar na aeronave.
Enfim havia encontrado um entretenimento para os quinze minutos finais. E por um pequeno momento desejou que as duas cidades fossem mais distantes uma da outra. Terminou de beber a coca-cola e colocou a pequena pedra de gelo na boca. Devolveu o copo para a aeromoça e logo em seguida lançou um olhar para as pernas e depois para a cintura. Sentiu – se sortudo e abriu um pequeno sorriso. Entretanto, foi interrompido pela voz do piloto autorizando o pouso no aeroporto. Pegou sua mochila dentro do compartimento de bagagens e ficou de pé, esperando em fila indiana o momento de desembarcar. E deixou, é claro, que as lindas pernas ficassem à sua frente. Acompanhou – las até onde pôde, mas aquelas pernas pareciam estar apressadas ou desinteressadas em conhecê-lo. Desistiu, então, apesar de ter imaginado suas mãos tocando-as por cima da calça jeans.
Desviou o seu trajeto para o restaurante e pediu um prato bem gostoso, para compensar a perda que havia sofrido. Deliciou-se por alguns minutos e sentiu que seu dia seria longo. O que fazer até o próximo vôo que o levaria para outra cidade? Foi então que resolveu procurar as pernas. Talvez elas estivessem esperando também, assim como ele. Passou por todas as lojas, restaurantes, bares e companhias aéreas. Não as encontrou. Resolveu sentar em um dos bancos de espera. Após alguns minutos resolveu deitar. Tirou seus óculos escuros da cabeça e os deslizou até os olhos para que pudessem encobrir seu olhar enquanto tirava uma soneca. Pouco a pouco o sono foi lhe atingindo. Segurava sobre a barriga, para dar um ar mais culto a sua pessoa, o livro que havia começado a ler dentro do avião.
Passaram – se quarenta minutos e inesperadamente foi despertado por um senhor de meia-idade que lhe pedia um ajuda em dinheiro para inteirar uma passagem de volta à Bahia. Carecidamente e com uma vontade intrínseca de fazer uma boa ação deu dois reais ao senhor. O homem lhe agradeceu e lhe perguntou qual era o destino da viagem. Disse somente que estaria saindo do país.
Quando pensou em voltar à sua posição de repouso, foi abordado pelo lindo par de pernas que havia buscado com tanto interesse anteriormente. Mas as pernas só queriam lhe dizer que precisavam de mais espaço no banco onde ele estava usando de uma forma meio abusiva
.

domingo, 4 de julho de 2010

Somos todos animais


Forte
destino
late o
gato
sozinho
na favela

Vaca
desengonçada
desfila
piando
cantando
vantagem

Galinha
urbana
come pedra
vomitando
tragédia
na rédea

segunda-feira, 28 de junho de 2010

O tempo das tristezas - Parte II


Correram atrás de mim sem me explicarem o motivo. Eu errei sim! Eu confesso! Mas eu não machuquei ninguém. Isso é muito injusto! Tudo sai da minha vida sem explicação, sem aviso prévio! Ninguém manda notícia! Tudo foge, nada se encaixa!
Mas, por educação, eu explico o que aconteceu.
Eu cometi dois erros graves. Eu fiquei instável e mais uma vez me precipitei! Eu falei o que não devia, ouvi o que não queria, vi o que não desejava. Não aproveitei nada da minha noite e quase tudo acabou em tragédia!
Eu também me iludi. Foi o meu segundo e maior erro! Só que hoje não quero ver mais ninguém. Não quero cheirar ninguém! Cansei de ser o otário da corte. Contudo, mesmo assim, aqui estou lamentando e conspirando contra a minha própria pessoa. Tudo fica escuro, eu fico cego e mudo.
Quando eu corri da verdade, não foi por causa do meu medo. Longe disso. Foi por causa da minha infantilidade que me atacou novamente. As palavras estavam grudadas no meu palato mole. Não sei o porquê, mas fiquei com uma ânsia de vômito incrível. E queria pôr tudo para fora, de uma forma não muito cortês.
Fui contido pelo desconfiômetro, que por sinal, estava meio quebrado nesses últimos dias. Porém, mais uma vez ele me salvou.
Fui estuprado por ofensas horríveis, que cortaram a minha pele, expondo o meu tecido adiposo e os meus ocos vasos sangüíneos. Eu já não tinha mais sangue. Nem de barata.
Só que, na verdade, não foi culpa minha. Se dependesse de mim, tudo daria certo! Eu não sou louco o bastante para desejar o mal a mim mesmo! Oras, a loucura não me possuiu ainda por completo. Mas eu corri...
Só que, se o tempo voltasse, eu não correria e explico o porquê.
Quem corre do perigo ou quem corre das circunstâncias é um fraco!
Quando o dia começa e eu me vejo na cama, pronto para mais uma batalha, eu penso se todas as pessoas pensam como eu. É claro que não. Mas certas coisas óbvias vagueiam pela nossa mente e nem nos importamos com isso. Talvez seja um resquício de uma infância bem vivida. É uma infantilidade saudável.
Já faz dias que estou sangrando e isso incomoda bastante. O sangue às vezes tem sabor amargo. Felizmente não existe mais dor. A dor já me consumiu bastante e, hoje, sinto apenas um reflexo de uma grande confusão interna.
Foi uma fuga complicada que acabou com os meus ligamentos do joelho. Corri bastante dos meus medos e dos meus sonhos. Corri de cobras e cavalos. Corri das ameaças e das dúvidas que não se curam. Corri do escuro. Corri da claridade do céu.
Não vi brilho nos meus olhos. Somente medo e pânico. Ódio!
O que me ocorre agora é um momento de reflexão. Sei que a tristeza é um sentimento que plantamos, regamos e colhemos. Sei que minha fuga é igual a milhares de fugas por ai. Não fui o primeiro e nem serei o último a correr das ilusões.
Se correram de atrás de mim, de uma forma ou de outra, tenho uma parcela de culpa. Mas eu não sou culpado. Sou inocente! Não podem me crucificar! Não podem me queimar. A agonia que me cerca agora gera um turbilhão de gritos desesperados de pessoas inocentes sendo queimadas em um passado distante. Não quero fazer a história dessa maneira, sendo um injustiçado. Quero ser um herói. Pelo menos isso eu mereço.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

O tempo das tristezas - Parte I


Não gosto de ser comum. E isso me traz algumas sensações boas e ruins.
Quando vejo que o meu sorriso não está amarelo ou quando ele parece transmitir alguma sensação especial, eu me esforço mais ainda em deixá – lo branco e imponente.
Só que faz tempo que não abro minha boca para tal finalidade. Somente um mau hálito deve habitar minha boca nesse exato momento.
Faz tempo que não sinto os meus pêlos se enrijecendo. Um movimento que se sente mesmo estando coberto e coberto por roupas e acessórios.
Faz tempo que não sinto mãos no meu corpo. Nem as minhas andam me tocando ultimamente. Minhas mãos não têm companheiras. Não se apertam mais e nem se acariciam.
Faz tempo que não há um toque suave e mágico no canto da minha boca. Minha boca anda fechada assim como os bancos em época de copa do mundo.
Faz tempo que não olho para onde não deveria olhar. E se por acaso eu olho, não vejo as luzes e cores que mesclam as imagens na minha retina, fazendo – me delirar ainda mais com as mãos apertando meu pescoço.
Realmente faz tempo. Faz tempo que não aspiro o pó da alegria. Um pó que me leva a ser um dançarino internacional. Um pó que deixa os meus olhos vermelhos, mas que deixa uma vontade enorme no peito de ser o número um.
Faz tempo que não vejo um sorriso ou um olhar misterioso. Um olhar ambíguo, devorador. Apavorante. Um olhar sim, um olhar não. Um olhar sim/não.
Faz tempo que fico aqui, esperando esse olhar, o toque.
Não sei se devo esperar ou se devo procurar mãos que completem as minhas. Não sei se deixo meu estômago vazio ou se saio na loucura, tentando preenchê – lo com uma dose de alegria.
Faz tempo que canto a mesma música. Faz tempo que ouço o mesmo CD. Lembrando da minha vida agitada e surpreendente a cada final de semana. Ouço as músicas, agora, e deixo lágrimas caírem sobre o meu corpo.
Aliás, lágrimas já derramei demasiadamente. Deveria eu sair? Mas eu sou tão tímido...deixo elas caírem, não?
Mas eu não sei como.
Faz tempo e vai fazer muito mais tempo. Não vai dar tempo de explorar tudo novamente. Não vai dar tempo de fazer tudo o que eu quero. Pegaram os meus olhos e os colocaram em uma caixa escura e seca.
Faz tempo. Mas não faz tanto tempo assim que desejo escrever o que me aconteceu. Porque não seria justo eu ficar dizendo palavras sem explicação.
Infelizmente, porém, a explicação não é conveniente. Então eu termino aqui, dizendo que o tempo passa para todos.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Fisiologia humana


Coração
retorcido
sangue áspero
colorido
ácido corpo
enriquecido

Choro
lágrimas
secas
difíceis
choro
angustiante

quinta-feira, 17 de junho de 2010

NADA


Nada vale
Além
em certas
circunstâncias
Instantes
grandes
Espelhos pequenos
nos dão memória
Glória?
Lamúria!
Ria

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Coração estável


De sua alma
posso tirar
um dedo de amor
dedo inconsciente
no ato de amar
o amor da minha alma

Assim
basta conhecer
duelos e
fazer graça
hesitando inconscientemente
júbilos.

quarta-feira, 9 de junho de 2010


É só vento

É só vento quando você se apaixona e sua mão trêmula segura uma frieza de espírito, um calor interior que queima suas vísceras...mas é só vento.
Laura sente o frio da paixão, sente as vozes da cabeça, mas não sente a realidade sob os seus pés sujos.
É só vento a imagem dele vinte e quatro horas em sua mente...olhando para ela com uma cara de reprovação...
É só vento o encontro no cinema...que foi uma catástrofe. Sinceramente, Laura não se encontrou com ele...apenas encontrou drogas e drogas alucinógenas, que a deixou fria durante todo o filme...é o olhar de reprovação.
Esse olhar de reprovação é um pesadelo terrível.
Laura não assistiu ao filme. Assistiu suas pernas inquietas e sua respiração desregulada. É só vento o cheiro de pipoca e a vontade de beijar na boca.
É só vento o espaço entre ele e ela. Um espaço quilométrico, repleto de aromas e sons que faz passar um outro tipo de filme na cabeça de Laura.
Ouça, Laura! Você não tem que ser má...não deixe eles pensarem que você é uma bruxa. Eu choro agora. Por você!
É só vento o filme podre que você não assiste, mas que fica só esperando para sentir um toque de mãos, uma esbarrada no braço ou na perna.
Contudo, não chore, Laura. É só vento...
Eu sei que você está perdida na melodia que corre da cabeça dele para a sua. Ouça Laura!
É só vento. Não fique triste por estar no escuro e não ter a presença do acompanhante. Eu não queria falar, mas ele não gostou de você...
É só vento Laura...é só vento essa música triste que você escuta agora.
Você tem que estar em algum lugar. Quando o filme acabou eu vi o seu andar descontente, sua cabeça pesada e a esperança bombeando em seus olhos. Ouça, Laura. É só vento!
E o frio te pegou de surpresa. Que frio gostoso, que amor gostoso...mas que amar é esse? Não existe amor...é só vento.
Encontre uma palavra certa para dizer, talvez ele mude de idéia. Talvez ele veja o seu outro lado. Só não chore agora, porque eu já chorei demais e tento me recuperar para sair dessa longa...curta...não sei...talvez estreita vida.
Você não errará dessa maneira novamente. Conte a ele sobre sua paixão pela Argentina. Conte a ele que seu desejo é dançar um tango em cima de uma mesa em um restaurante em Buenos Aires. Talvez ele se empolgue e te veja com outros olhos.
Mas não é por sua causa que ele não te olha ou não conversa com você, ele está tentando diminuir a tristeza e esperança. Você não o terá nos braços...eu sinto muito, eu já passei por isso...não chore Laura...
Eu estou com medo! Eu fico pensando...você não deveria ter ido ao cinema com ele...ficasse em casa...chorasse sozinha, na companhia do lar, das fotos na parede...das velas acessas...
Você aprendeu muita coisa desde que o conheceu. Mas é só vento!
É só vento o livro que você deixou de comprar ou a fortuna que gastou só para estar ao lado dele.
Ele não te merece, Laura. Você é jovem, tem um grande futuro pela frente.
Agora enxugue as lágrimas e torça para que venha uma grande frente fria. Você irá esquecer tudo, os momentos de ira e de esperança...porque tudo é só vento.
Foi tudo um momento de fraqueza sua. Todos nós temos, é normal, é comum. Você foi forte em agüentar um rapaz bonito, inteligente e quase pronto para te fazer feliz. Porém, o que nós podemos fazer se ele é tão complicado por dentro...
Deixe isso, Laura. É só vento.
Você nunca pensou que estava sonhando? Você já sonhou com alguma coisa, Laura?
Por causa dele você se arriscou, jogou – se do precipício. Quase que ofereceu tudo...e ele não quis nada...nem te abraçar ele quis...o que ele queria então? Ele queria só te ver...só saber se você era do jeito que ele imaginava.
E, infelizmente, você não era...mas é só vento, Laura.
Deixe as nuvens escuras passarem...deixe o inverno passar...espere o setembro de braços abertos.
E não o procure mais...não olhe as fotos dele. Esqueça – o. Se for chorar, chore agora. Eu não queria, mas se você quiser, eu choro com você...sem pensar nos outros...vamos chorar juntos desesperadamente, para eliminar qualquer resquício de coisa suja, de ingratos, de desonestos para com os nossos sentimentos.
É só vento, Laura. Pense dessa maneira. É só vento. Eu estou pensando assim.
Onde está, Laura? Viu, ele já está indo, aos poucos...e nem perde o tempo de deixar rastro. Vai embora!
Expulse- o, Laura, porque é só vento!

sábado, 5 de junho de 2010


Palhaços!

Eram palhaços. Eu acho que eram palhaços. Andavam e desfilavam pela rua entre os carros e as motos. O ônibus onde eu estava não parecia cheio. Isso porque eu não olhava para trás. Sentava em um banco na parte da frente do ônibus. E uma moça próxima a mim me olhava com uma vontade enorme de sentar. Eu não cedi. Ela esperava que eu falasse “ sente - se aqui”. Mas eu não falei. Eu também sou um cidadão. Só porque era uma moça...
E minhas pernas doíam. Eu olhava aqueles supostos palhaços. Não sabia ao certo o que faziam. Conversavam com os motoristas e logo se retiravam. O semáforo abria e eles ficavam parados na calçada à espera da próxima frota.
Eu sei que enquanto eu olhava aqueles supostos palhaços, lembrava do meu sono. Havia dormido toda a última aula. A penúltima também. Os palhaços não me chamaram a atenção. Aliás, eu odeio palhaços. O fato é que eles, simplesmente, desviaram - me o olhar. É diferente de chamar a atenção.
O meu único desejo naquele momento era chegar logo em casa. Por que aqueles palhaços estavam ali? Rua não é lugar de palhaços. Não havia circos naquela época na cidade. Embora estando muito cansado, parei de pensar no meu sono e na minha fome. Sim, eu estava com muita fome. Passei a observar aqueles três supostos palhaços.
Acho que eram três homens. Dois deles eu tinha certeza. Seguravam uma resma de panfletinhos. Pronto! Era o que faltava! Palhaços entregando panfletos? Por isso que eu ainda questionava aquela atitude. Ainda bem que o ônibus estava vazio. Percebi quando ajeitei os meus materiais. Pareciam tijolos. A moça que estava ao meu lado já se fora. Se o ônibus estivesse cheio...
Os palhaços tinham os seus rostos pintados de branco e de azul. Usavam também um chapéu, do tipo cartola. Eu olhei para o motorista do ônibus e minha raiva voltou. Que ódio daquele motorista! Não queria aceitar minhas moedas. Negando dinheiro! Se eu tivesse moedas de um centavo seria melhor ainda!
O ônibus partiu e os palhaços ficaram para trás fazendo o que estavam fazendo, pois não havia descoberto, em tão poucos minutos, o que eles estavam fazendo.
Como minhas pernas doíam! Desci do ônibus e peguei outro. Minha casa é longe! Este, porém, eu já sabia que estaria lotado. Fiquei de pé próximo à porta. Minhas pernas se dobravam de tanto cansaço. São três pontos até a minha casa. Graças a Deus!
E não é que o palhaço apareceu novamente. Desta vez ele tinha o rosto pintado de vermelho e estava sozinho. Agora sim! Ele está entregando os panfletos. Era uma propaganda de uma loja, se não me engano. Foi possível ver dessa vez. Que coisa! Até palhaços entregam panfletos.
Uma senhora, aparentando uns trinta anos, me empurrou e pegou o meu lugar dentro do ônibus.
- Espere um instante! Você é uma senhora mas eu não deixei de ser um cidadão.
E a empurrei de volta.
Há palhaços entregando panfletos por toda a cidade. Aquele que eu vi foi apenas mais um no meio de um enorme novelo de pessoas. Empurrei a senhora de propósito. Só porque eu iria descer no próximo ponto.
Cheguei em casa, almocei e descansei minhas pernas.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Não - Parte III


Não
jogo
o jogo
gingado
mesmice
maioria


Não
falo
não
calo
palavras travessas

Não
acordo
um sonho
vivo
sonhado
seguro

Não
como
a vida
come
os outros
cozidos

Não
escrevo
letras
letreiro
escrevo
letras idéias

Não
lavo
luvas
livres
sujeira
impregnada

Não
canto
canções
cancerígenas
cardíacas cerebrais
corroídas centralizadas

Não
conto
contos
contados
anteriormente
conte

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Não - parte II


Não penso
em parar
de pensar
sem pensar
nos seus pensamentos
perdidos

Não me
perturbem
a hora
não convém
corpo
frágil

Não dói
o amor
imaginado
imaturamente
pela minha
imagem

Não
perco
passos
perdido
pesadelo
escuro

terça-feira, 1 de junho de 2010

Não - Parte 1


Não vejo

e não olho

os olhos

que te fitam

e te veem

olhando



Não sinto

o sonho

suado

nas noites

sonhadoras

de sua

imaginação