sábado, 5 de junho de 2010


Palhaços!

Eram palhaços. Eu acho que eram palhaços. Andavam e desfilavam pela rua entre os carros e as motos. O ônibus onde eu estava não parecia cheio. Isso porque eu não olhava para trás. Sentava em um banco na parte da frente do ônibus. E uma moça próxima a mim me olhava com uma vontade enorme de sentar. Eu não cedi. Ela esperava que eu falasse “ sente - se aqui”. Mas eu não falei. Eu também sou um cidadão. Só porque era uma moça...
E minhas pernas doíam. Eu olhava aqueles supostos palhaços. Não sabia ao certo o que faziam. Conversavam com os motoristas e logo se retiravam. O semáforo abria e eles ficavam parados na calçada à espera da próxima frota.
Eu sei que enquanto eu olhava aqueles supostos palhaços, lembrava do meu sono. Havia dormido toda a última aula. A penúltima também. Os palhaços não me chamaram a atenção. Aliás, eu odeio palhaços. O fato é que eles, simplesmente, desviaram - me o olhar. É diferente de chamar a atenção.
O meu único desejo naquele momento era chegar logo em casa. Por que aqueles palhaços estavam ali? Rua não é lugar de palhaços. Não havia circos naquela época na cidade. Embora estando muito cansado, parei de pensar no meu sono e na minha fome. Sim, eu estava com muita fome. Passei a observar aqueles três supostos palhaços.
Acho que eram três homens. Dois deles eu tinha certeza. Seguravam uma resma de panfletinhos. Pronto! Era o que faltava! Palhaços entregando panfletos? Por isso que eu ainda questionava aquela atitude. Ainda bem que o ônibus estava vazio. Percebi quando ajeitei os meus materiais. Pareciam tijolos. A moça que estava ao meu lado já se fora. Se o ônibus estivesse cheio...
Os palhaços tinham os seus rostos pintados de branco e de azul. Usavam também um chapéu, do tipo cartola. Eu olhei para o motorista do ônibus e minha raiva voltou. Que ódio daquele motorista! Não queria aceitar minhas moedas. Negando dinheiro! Se eu tivesse moedas de um centavo seria melhor ainda!
O ônibus partiu e os palhaços ficaram para trás fazendo o que estavam fazendo, pois não havia descoberto, em tão poucos minutos, o que eles estavam fazendo.
Como minhas pernas doíam! Desci do ônibus e peguei outro. Minha casa é longe! Este, porém, eu já sabia que estaria lotado. Fiquei de pé próximo à porta. Minhas pernas se dobravam de tanto cansaço. São três pontos até a minha casa. Graças a Deus!
E não é que o palhaço apareceu novamente. Desta vez ele tinha o rosto pintado de vermelho e estava sozinho. Agora sim! Ele está entregando os panfletos. Era uma propaganda de uma loja, se não me engano. Foi possível ver dessa vez. Que coisa! Até palhaços entregam panfletos.
Uma senhora, aparentando uns trinta anos, me empurrou e pegou o meu lugar dentro do ônibus.
- Espere um instante! Você é uma senhora mas eu não deixei de ser um cidadão.
E a empurrei de volta.
Há palhaços entregando panfletos por toda a cidade. Aquele que eu vi foi apenas mais um no meio de um enorme novelo de pessoas. Empurrei a senhora de propósito. Só porque eu iria descer no próximo ponto.
Cheguei em casa, almocei e descansei minhas pernas.

3 comentários:

  1. Gostei muito deste texto! :D Foi muito mais facil de seguir pra mim. Tmb gostei quando o homem disse vc será senhora mas eu não deixo de ser cidadão. Rsrs! A foto ta ótima tmb!!!

    ResponderExcluir
  2. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  3. Mas e ai, eram Palhaços ? ? ?


    Agora vc considera uma mulher de 30a, senhora ? ? ?

    ResponderExcluir