
O outro vôo
A poltrona parecia pertencer a um recém-nascido. Minúscula. As pernas não sabiam mais para qual lado posicionar. Nem os braços. Nem a cabeça. Nem as mãos. Viajar internacionalmente não é glamuroso. Muito menos confortável. E assim que apagaram as luzes para que pudessem dormir (entenda-se tentar dormir), ele começou a sentir um frio digno de um inverno rigoroso no pólo sul. Ar-condicionado.
Pensando neste desconforto adicional, a companhia aérea oferece um kit salva-vidas, contendo um par de meias nitidamente fora de moda, um cobertor sapeca - moleque, uma útil escova de dente e um inútil tapa-ouvido.
Na hora de escolher um filme ou uma série de televisão para assistir, há uma boa variedade de títulos disponíveis. Ele escolheu uma comédia dramática na qual sua atriz favorita era a protagonista, além de ser um filme que concorreria ao Oscar naquele ano.
Tentou se posicionar o mais confortável possível debaixo daquele cobertor vermelho - sangue. Para isso, teve que se revirar pra lá e pra cá várias vezes. Até que ele despertou o (des)interesse da pessoa que estava ao seu lado. É claro que ele já havia reparado nas atitudes dele desde quando este se sentou, porém nenhuma atitude desagradável havia ainda lhe chamado a atenção.
De uma maneira meio indelicada, o rapaz ao lado ajeitou sua roupa cutucando - o de leve e ligou a televisão. Procurou... procurou... procurou... e encontrou um filme de ficção científica intergalático. Assim, ficaram assistindo aos filmes, cada um no seu canto e ainda mais reduzidos e encolhidos ao pequeno espaço que era fornecido, para que não houvesse nenhum tipo de contato físico.
Durante o filme, ouvia roncos e crianças chorando, roncos e crianças chorando, roncos e crianças chorando. Entretanto, seu filme era ótimo. E várias vezes ele caía na gargalhada. E por causa dessa sua atitude, o rapaz ao seu lado lhe olhava de rabo - de - olho e bufava como se ele estivesse atrapalhando sua viagem pelo espaço sideral. Ele caía na gargalhada propositalmente logo em seguida. E assim foi até o final do filme, que acabou primeiro que o dele, coincidindo com o serviço de bordo.
Ele poderia escolher entre frango, carne e massa. Escolheu frango. O rapaz ao seu lado escolheu massa. E comeram em silêncio. E continuavam separados. E o rapaz ainda o olhava de rabo – de -olho.
E o que fazer agora? Tentar dormir? Assistir a mais um filme? Conversar? Prestar atenção nos roncos e no choro das crianças? Escolheu a primeira opção e tentou dormir. Não funcionou muito bem, entretanto. Mas quando acordou já era de manhã e viu os raios solares saindo da pequena janela. Usou sua escova de dente gentilmente cedida pela companhia aérea e foi ao banheiro. Aliás, o banheiro foi outro momento crucial desta viagem. Equilibrista? Trapezista? Contorcionista? Exerceu os três cargos ao mesmo tempo.
Quando voltou, o rapaz que sentava ao seu lado já estava acordado tomando o café da manhã. Assim que se sentou, uma comissária de bordo veio trazer o dele. Comeu em silêncio novamente. Contudo, a esta hora do vôo, ele já estava com muita vontade de conversar. E quando abriu a boca para fazer uma pergunta, o rapaz ao seu lado disse primeiro:
- Primeira vez que vai a Europa?
- Sim, sim...
Fez-se uma pausa.
- E você?
- Não, é a segunda vez. E dessa vez vou ficar no interior. Estudar.
- Ah, eu vou ficar em Paris e depois fazer um tour pela Europa.
- Legal.
Outra pausa.
De repente, o piloto anuncia que o pouso fora autorizado.
Foi então que o rapaz se curvou e pegou sua mochila. De lá tirou um guia turístico completo de Paris e lhe deu.