quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Resistência ao amor


Resistência ao amor


Não
amo
amor
amado
assim
amo
meu
reflexo

Reflexo
voz
palavras
amo
mas
não

Não
amo
carne
detalhe
um milagre
sem fim

Infinito
além
ecos
amados
amedrontados

Medo
amo
muito
mas
não
amo
amar

Amor
impossível
irresistível
morro
amo
não

terça-feira, 27 de julho de 2010

O outro vôo


O outro vôo

A poltrona parecia pertencer a um recém-nascido. Minúscula. As pernas não sabiam mais para qual lado posicionar. Nem os braços. Nem a cabeça. Nem as mãos. Viajar internacionalmente não é glamuroso. Muito menos confortável. E assim que apagaram as luzes para que pudessem dormir (entenda-se tentar dormir), ele começou a sentir um frio digno de um inverno rigoroso no pólo sul. Ar-condicionado.
Pensando neste desconforto adicional, a companhia aérea oferece um kit salva-vidas, contendo um par de meias nitidamente fora de moda, um cobertor sapeca - moleque, uma útil escova de dente e um inútil tapa-ouvido.
Na hora de escolher um filme ou uma série de televisão para assistir, há uma boa variedade de títulos disponíveis. Ele escolheu uma comédia dramática na qual sua atriz favorita era a protagonista, além de ser um filme que concorreria ao Oscar naquele ano.
Tentou se posicionar o mais confortável possível debaixo daquele cobertor vermelho - sangue. Para isso, teve que se revirar pra lá e pra cá várias vezes. Até que ele despertou o (des)interesse da pessoa que estava ao seu lado. É claro que ele já havia reparado nas atitudes dele desde quando este se sentou, porém nenhuma atitude desagradável havia ainda lhe chamado a atenção.
De uma maneira meio indelicada, o rapaz ao lado ajeitou sua roupa cutucando - o de leve e ligou a televisão. Procurou... procurou... procurou... e encontrou um filme de ficção científica intergalático. Assim, ficaram assistindo aos filmes, cada um no seu canto e ainda mais reduzidos e encolhidos ao pequeno espaço que era fornecido, para que não houvesse nenhum tipo de contato físico.
Durante o filme, ouvia roncos e crianças chorando, roncos e crianças chorando, roncos e crianças chorando. Entretanto, seu filme era ótimo. E várias vezes ele caía na gargalhada. E por causa dessa sua atitude, o rapaz ao seu lado lhe olhava de rabo - de - olho e bufava como se ele estivesse atrapalhando sua viagem pelo espaço sideral. Ele caía na gargalhada propositalmente logo em seguida. E assim foi até o final do filme, que acabou primeiro que o dele, coincidindo com o serviço de bordo.
Ele poderia escolher entre frango, carne e massa. Escolheu frango. O rapaz ao seu lado escolheu massa. E comeram em silêncio. E continuavam separados. E o rapaz ainda o olhava de rabo – de -olho.
E o que fazer agora? Tentar dormir? Assistir a mais um filme? Conversar? Prestar atenção nos roncos e no choro das crianças? Escolheu a primeira opção e tentou dormir. Não funcionou muito bem, entretanto. Mas quando acordou já era de manhã e viu os raios solares saindo da pequena janela. Usou sua escova de dente gentilmente cedida pela companhia aérea e foi ao banheiro. Aliás, o banheiro foi outro momento crucial desta viagem. Equilibrista? Trapezista? Contorcionista? Exerceu os três cargos ao mesmo tempo.
Quando voltou, o rapaz que sentava ao seu lado já estava acordado tomando o café da manhã. Assim que se sentou, uma comissária de bordo veio trazer o dele. Comeu em silêncio novamente. Contudo, a esta hora do vôo, ele já estava com muita vontade de conversar. E quando abriu a boca para fazer uma pergunta, o rapaz ao seu lado disse primeiro:
- Primeira vez que vai a Europa?
- Sim, sim...
Fez-se uma pausa.
- E você?
- Não, é a segunda vez. E dessa vez vou ficar no interior. Estudar.
- Ah, eu vou ficar em Paris e depois fazer um tour pela Europa.
- Legal.
Outra pausa.
De repente, o piloto anuncia que o pouso fora autorizado.
Foi então que o rapaz se curvou e pegou sua mochila. De lá tirou um guia turístico completo de Paris e lhe deu.



sexta-feira, 23 de julho de 2010


Caindo


Cai o esforço
de um moço
oco
Que queria muito
ir ao encontro
de um rosto
azul/amarelo
e cor de rosa
levando, é claro
uma rosa
rosa
Nossa! Não!
Só cai o esboço.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

O vôo




O vôo

Ele suspirou de alegria e tristeza. Misturou de leve as pedras de gelo que boiavam refrescantemente no copo com coca-cola. Lambeu o dedo e lançou um olhar perseguidor ao seu redor. As pessoas não estavam lhe prestando atenção, embora esse fosse o seu desejo íntimo.
O avião decolou e ele fechou os olhos demonstrando calma e falta de preocupação. Sentiu que teria que ler o livro que trouxera consigo devido ao pouco entusiasmo que lhe circundava (para ser bem claro: não havia nenhuma pessoa interessante no vôo).
Ele leu dois capítulos e respirou profundamente, olhando em seguida para a janela a fim de visualizar alguma paisagem conhecida. No instante seguinte, reparou as pernas que estavam esticadas justamente ao seu lado. E ficou surpreso por não repara-las anteriormente. E imaginou o que perdera por não ter reparado aquelas pernas no saguão do aeroporto ou até mesmo ao entrar na aeronave.
Enfim havia encontrado um entretenimento para os quinze minutos finais. E por um pequeno momento desejou que as duas cidades fossem mais distantes uma da outra. Terminou de beber a coca-cola e colocou a pequena pedra de gelo na boca. Devolveu o copo para a aeromoça e logo em seguida lançou um olhar para as pernas e depois para a cintura. Sentiu – se sortudo e abriu um pequeno sorriso. Entretanto, foi interrompido pela voz do piloto autorizando o pouso no aeroporto. Pegou sua mochila dentro do compartimento de bagagens e ficou de pé, esperando em fila indiana o momento de desembarcar. E deixou, é claro, que as lindas pernas ficassem à sua frente. Acompanhou – las até onde pôde, mas aquelas pernas pareciam estar apressadas ou desinteressadas em conhecê-lo. Desistiu, então, apesar de ter imaginado suas mãos tocando-as por cima da calça jeans.
Desviou o seu trajeto para o restaurante e pediu um prato bem gostoso, para compensar a perda que havia sofrido. Deliciou-se por alguns minutos e sentiu que seu dia seria longo. O que fazer até o próximo vôo que o levaria para outra cidade? Foi então que resolveu procurar as pernas. Talvez elas estivessem esperando também, assim como ele. Passou por todas as lojas, restaurantes, bares e companhias aéreas. Não as encontrou. Resolveu sentar em um dos bancos de espera. Após alguns minutos resolveu deitar. Tirou seus óculos escuros da cabeça e os deslizou até os olhos para que pudessem encobrir seu olhar enquanto tirava uma soneca. Pouco a pouco o sono foi lhe atingindo. Segurava sobre a barriga, para dar um ar mais culto a sua pessoa, o livro que havia começado a ler dentro do avião.
Passaram – se quarenta minutos e inesperadamente foi despertado por um senhor de meia-idade que lhe pedia um ajuda em dinheiro para inteirar uma passagem de volta à Bahia. Carecidamente e com uma vontade intrínseca de fazer uma boa ação deu dois reais ao senhor. O homem lhe agradeceu e lhe perguntou qual era o destino da viagem. Disse somente que estaria saindo do país.
Quando pensou em voltar à sua posição de repouso, foi abordado pelo lindo par de pernas que havia buscado com tanto interesse anteriormente. Mas as pernas só queriam lhe dizer que precisavam de mais espaço no banco onde ele estava usando de uma forma meio abusiva
.

domingo, 4 de julho de 2010

Somos todos animais


Forte
destino
late o
gato
sozinho
na favela

Vaca
desengonçada
desfila
piando
cantando
vantagem

Galinha
urbana
come pedra
vomitando
tragédia
na rédea

segunda-feira, 28 de junho de 2010

O tempo das tristezas - Parte II


Correram atrás de mim sem me explicarem o motivo. Eu errei sim! Eu confesso! Mas eu não machuquei ninguém. Isso é muito injusto! Tudo sai da minha vida sem explicação, sem aviso prévio! Ninguém manda notícia! Tudo foge, nada se encaixa!
Mas, por educação, eu explico o que aconteceu.
Eu cometi dois erros graves. Eu fiquei instável e mais uma vez me precipitei! Eu falei o que não devia, ouvi o que não queria, vi o que não desejava. Não aproveitei nada da minha noite e quase tudo acabou em tragédia!
Eu também me iludi. Foi o meu segundo e maior erro! Só que hoje não quero ver mais ninguém. Não quero cheirar ninguém! Cansei de ser o otário da corte. Contudo, mesmo assim, aqui estou lamentando e conspirando contra a minha própria pessoa. Tudo fica escuro, eu fico cego e mudo.
Quando eu corri da verdade, não foi por causa do meu medo. Longe disso. Foi por causa da minha infantilidade que me atacou novamente. As palavras estavam grudadas no meu palato mole. Não sei o porquê, mas fiquei com uma ânsia de vômito incrível. E queria pôr tudo para fora, de uma forma não muito cortês.
Fui contido pelo desconfiômetro, que por sinal, estava meio quebrado nesses últimos dias. Porém, mais uma vez ele me salvou.
Fui estuprado por ofensas horríveis, que cortaram a minha pele, expondo o meu tecido adiposo e os meus ocos vasos sangüíneos. Eu já não tinha mais sangue. Nem de barata.
Só que, na verdade, não foi culpa minha. Se dependesse de mim, tudo daria certo! Eu não sou louco o bastante para desejar o mal a mim mesmo! Oras, a loucura não me possuiu ainda por completo. Mas eu corri...
Só que, se o tempo voltasse, eu não correria e explico o porquê.
Quem corre do perigo ou quem corre das circunstâncias é um fraco!
Quando o dia começa e eu me vejo na cama, pronto para mais uma batalha, eu penso se todas as pessoas pensam como eu. É claro que não. Mas certas coisas óbvias vagueiam pela nossa mente e nem nos importamos com isso. Talvez seja um resquício de uma infância bem vivida. É uma infantilidade saudável.
Já faz dias que estou sangrando e isso incomoda bastante. O sangue às vezes tem sabor amargo. Felizmente não existe mais dor. A dor já me consumiu bastante e, hoje, sinto apenas um reflexo de uma grande confusão interna.
Foi uma fuga complicada que acabou com os meus ligamentos do joelho. Corri bastante dos meus medos e dos meus sonhos. Corri de cobras e cavalos. Corri das ameaças e das dúvidas que não se curam. Corri do escuro. Corri da claridade do céu.
Não vi brilho nos meus olhos. Somente medo e pânico. Ódio!
O que me ocorre agora é um momento de reflexão. Sei que a tristeza é um sentimento que plantamos, regamos e colhemos. Sei que minha fuga é igual a milhares de fugas por ai. Não fui o primeiro e nem serei o último a correr das ilusões.
Se correram de atrás de mim, de uma forma ou de outra, tenho uma parcela de culpa. Mas eu não sou culpado. Sou inocente! Não podem me crucificar! Não podem me queimar. A agonia que me cerca agora gera um turbilhão de gritos desesperados de pessoas inocentes sendo queimadas em um passado distante. Não quero fazer a história dessa maneira, sendo um injustiçado. Quero ser um herói. Pelo menos isso eu mereço.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

O tempo das tristezas - Parte I


Não gosto de ser comum. E isso me traz algumas sensações boas e ruins.
Quando vejo que o meu sorriso não está amarelo ou quando ele parece transmitir alguma sensação especial, eu me esforço mais ainda em deixá – lo branco e imponente.
Só que faz tempo que não abro minha boca para tal finalidade. Somente um mau hálito deve habitar minha boca nesse exato momento.
Faz tempo que não sinto os meus pêlos se enrijecendo. Um movimento que se sente mesmo estando coberto e coberto por roupas e acessórios.
Faz tempo que não sinto mãos no meu corpo. Nem as minhas andam me tocando ultimamente. Minhas mãos não têm companheiras. Não se apertam mais e nem se acariciam.
Faz tempo que não há um toque suave e mágico no canto da minha boca. Minha boca anda fechada assim como os bancos em época de copa do mundo.
Faz tempo que não olho para onde não deveria olhar. E se por acaso eu olho, não vejo as luzes e cores que mesclam as imagens na minha retina, fazendo – me delirar ainda mais com as mãos apertando meu pescoço.
Realmente faz tempo. Faz tempo que não aspiro o pó da alegria. Um pó que me leva a ser um dançarino internacional. Um pó que deixa os meus olhos vermelhos, mas que deixa uma vontade enorme no peito de ser o número um.
Faz tempo que não vejo um sorriso ou um olhar misterioso. Um olhar ambíguo, devorador. Apavorante. Um olhar sim, um olhar não. Um olhar sim/não.
Faz tempo que fico aqui, esperando esse olhar, o toque.
Não sei se devo esperar ou se devo procurar mãos que completem as minhas. Não sei se deixo meu estômago vazio ou se saio na loucura, tentando preenchê – lo com uma dose de alegria.
Faz tempo que canto a mesma música. Faz tempo que ouço o mesmo CD. Lembrando da minha vida agitada e surpreendente a cada final de semana. Ouço as músicas, agora, e deixo lágrimas caírem sobre o meu corpo.
Aliás, lágrimas já derramei demasiadamente. Deveria eu sair? Mas eu sou tão tímido...deixo elas caírem, não?
Mas eu não sei como.
Faz tempo e vai fazer muito mais tempo. Não vai dar tempo de explorar tudo novamente. Não vai dar tempo de fazer tudo o que eu quero. Pegaram os meus olhos e os colocaram em uma caixa escura e seca.
Faz tempo. Mas não faz tanto tempo assim que desejo escrever o que me aconteceu. Porque não seria justo eu ficar dizendo palavras sem explicação.
Infelizmente, porém, a explicação não é conveniente. Então eu termino aqui, dizendo que o tempo passa para todos.