quinta-feira, 24 de junho de 2010

O tempo das tristezas - Parte I


Não gosto de ser comum. E isso me traz algumas sensações boas e ruins.
Quando vejo que o meu sorriso não está amarelo ou quando ele parece transmitir alguma sensação especial, eu me esforço mais ainda em deixá – lo branco e imponente.
Só que faz tempo que não abro minha boca para tal finalidade. Somente um mau hálito deve habitar minha boca nesse exato momento.
Faz tempo que não sinto os meus pêlos se enrijecendo. Um movimento que se sente mesmo estando coberto e coberto por roupas e acessórios.
Faz tempo que não sinto mãos no meu corpo. Nem as minhas andam me tocando ultimamente. Minhas mãos não têm companheiras. Não se apertam mais e nem se acariciam.
Faz tempo que não há um toque suave e mágico no canto da minha boca. Minha boca anda fechada assim como os bancos em época de copa do mundo.
Faz tempo que não olho para onde não deveria olhar. E se por acaso eu olho, não vejo as luzes e cores que mesclam as imagens na minha retina, fazendo – me delirar ainda mais com as mãos apertando meu pescoço.
Realmente faz tempo. Faz tempo que não aspiro o pó da alegria. Um pó que me leva a ser um dançarino internacional. Um pó que deixa os meus olhos vermelhos, mas que deixa uma vontade enorme no peito de ser o número um.
Faz tempo que não vejo um sorriso ou um olhar misterioso. Um olhar ambíguo, devorador. Apavorante. Um olhar sim, um olhar não. Um olhar sim/não.
Faz tempo que fico aqui, esperando esse olhar, o toque.
Não sei se devo esperar ou se devo procurar mãos que completem as minhas. Não sei se deixo meu estômago vazio ou se saio na loucura, tentando preenchê – lo com uma dose de alegria.
Faz tempo que canto a mesma música. Faz tempo que ouço o mesmo CD. Lembrando da minha vida agitada e surpreendente a cada final de semana. Ouço as músicas, agora, e deixo lágrimas caírem sobre o meu corpo.
Aliás, lágrimas já derramei demasiadamente. Deveria eu sair? Mas eu sou tão tímido...deixo elas caírem, não?
Mas eu não sei como.
Faz tempo e vai fazer muito mais tempo. Não vai dar tempo de explorar tudo novamente. Não vai dar tempo de fazer tudo o que eu quero. Pegaram os meus olhos e os colocaram em uma caixa escura e seca.
Faz tempo. Mas não faz tanto tempo assim que desejo escrever o que me aconteceu. Porque não seria justo eu ficar dizendo palavras sem explicação.
Infelizmente, porém, a explicação não é conveniente. Então eu termino aqui, dizendo que o tempo passa para todos.

4 comentários:

  1. Este texto me tocou o coração. Acho que é o mais profundo q vc tem escrito...gostei muito !

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  2. Nossa! Concordo. Adorei a imagem das maos. As maos parecem muito em meus poemas. As maos sao expressam muito mais do que as pessoas pensam. Vc ja leu uma coisa da Virginia Woolf? O estilo do conto eh muito parecido. Eu acho que vc gostaria dela (com fluxo de consciencia).

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. Nada alem de um relato, ou seria muito alem de um desabafo? Interessante e intrigante, o duro que acabo enxergando coisas dignas de grande debates, mas por meros desencontros os valores são invertidos/anulados.

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